O mundo é o repertório das nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio à nossa vida, mas é a sua autêntica periferia.
José Ortega y Gasset 

Cultura: uma reflexão sobre a reinvenção do sublime

A Cultura no mundo contemporâneo possui um conceito amplo que vai além das  manifestações artísticas e do patrimônio material e imaterial de um território, ela engloba canais largos capazes de estimular nosso crescimento, nossa auto estima e nossa cidadania. Cultura tem a ver com nosso passado, presente e futuro e dessa forma deve ser entendida numa perspectiva mais abrangente, cumulativa e transformadora. Sophia de Mello Andresen, uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX escreveu que  Cultura é uma coisa que, ou está na mentalidade e na vida, ou não está em parte nenhuma. “Não é um objeto de museu, é qualquer coisa de estrutural na vida humana.” Ela confirma assim a tese fundamental de que a cultura é um direito inalienável de todo o ser humano.

Neste dezembro algumas notas chamam a atenção justamente por seu aspecto cultural abrangente e global. Num leilão de arte em NY uma obra rara de Leonardo da Vinci (Salvator Mundi)  foi arrematada por 450 milhões de dólares por um príncipe saudita para o novíssimo Louvre árabe de Abu Dhabi, na capital dos Emirados Árabes Unidos, inaugurado recentemente. Por sua vez a França, país da  franquia Louvre apresentou um  orçamento de € 10 bilhões para a cultura em 2018, quantia à qual serão acrescentados aproximadamente outros 10 bilhões adicionais fornecidos por suas regiões e municípios, mais a criação de um “vale cultura” que prevê a liberação de € 500 para cada jovem de até 18 anos para gastos pessoais na área. “É uma espécie de renda mínima cultural, que será testada e possivelmente ampliada nos próximos anos.” segundo informou o governo francês, nos deixando impressionados.

Desde De Gaulle, a cultura funcionou como arma para compensar o retrocesso geopolítico e econômico francês no pós guerra. Eles entenderam perfeitamente o papel estratégico da Cultura e a defenderam de forma extraordinária. De governos socialistas como o de Mitterrand e seu Ministro Lang que, entre 1981 e 1993, conduziu uma ambiciosa política dotada de um orçamento excepcional até chegar no governo atual do centrista Macron, a questão cultural esteve sempre no cerne de tudo e é exemplo para o mundo, mesmo que nem tudo seja perfeito.

O caso da França é emblemático porque no país das vanguardas artísticas, dos irmãos Lumière, Niépce e Talbot, da  Nouvelle vague, de Foucault, Deleuze, Baudrillard, Derrida, Bourdieu, Sartre e Beauvoir,  da moda e da gastronomia,  um levantamento de 2014 apontou que o setor  cultural contribuiu para o PIB sete vezes mais do que a indústria automobilística. Para se ter uma ideia do que estamos falando, na Alemanha, o orçamento federal para a cultura gira em torno 1,2 bilhão de euros (3,7 bilhões de reais) no Reino Unido não chega em 1 bilhão de euros, ou o equivalente a  2,6 bilhões de reais , na Espanha o caso se equivale, a verba de Cultura se aproxima de  749 milhões de euros (2,3 bilhões de reais). Segundo o Observatório Europeu de Audiovisual, em 2013, a França vendeu 193,6 milhões de ingressos de cinema, mais que o Reino Unido (165 milhões), a Alemanha (130 milhões), a Itália (107 milhões) e a Espanha (78 milhões).

Em 2003 ocorreu um caso que nos dá a medida exata do valor da Cultura e seu papel estratégico em território francês, quando o Ministério da Cultura e a direção do Louvre lançaram um plano para a construção de um museu satélite na cidade de Lens, escolhida para sediar o projeto. Famosa por minas de carvão, Lens entrou em decadência econômica com o fechamento da última mina em 1986 e acumulava uma taxa de desemprego acima da média nacional passando a ser chamada de cidade fantasma. O  sublime museu ( um dos projetos mais belos do mundo desenvolvido pelo escritório SANAA) inaugurado em 2012, revitalizou a região que é próxima da fronteira com a Alemanha e fornece hoje  acesso às instituições culturais francesas para pessoas que vivem fora de Paris já que a cidade de Lens fica distante 200 km da capital cultural.

Louvre-Lens Foto: Hisao Suzuki

Anualmente o Louvre-Lens recebe 1 milhão de visitantes e passou a ser uma ferramenta cultural de desenvolvimento econômico e transformação social operando mudanças profundas na região. O projeto de Lens guarda referências à proposta de Lina Bo Bardi para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde os quadros flutuam no espaço com paredes de vidro permitindo uma total interação da obra e público que se movimenta nas galerias. A França nos prova que através da Cultura  a vida pode ser reinventada e ganhar sentidos novos.

Aqui cabe um adendo exemplificando nossas diferenças de conduta, planejamento e gestão: Um museu com projeto arrojado para abrigar acervo da Imagem e do Som está com obras paralisadas, apodrecendo estruturas diante do mar em Copacabana por conta da irresponsabilidade e abuso de gestores que não pensaram no conjunto, aliás sequer pensaram porque se o fizessem nunca construiriam  um prédio caro  diante da praia famosa. Nunca fez sentido e nunca fará. Também temos o exemplo da faraônica ex Cidade da Música no Rio de Janeiro que virou Cidade das Artes no meio do nada cercada por pistas movimentadas e abriga hoje festivais menores de alimentos, imóveis e até cinema evangélico. Sem programação prévia, orçamento e gestão, se configura num amontoado de concreto caro subutilizado e sem público. Também na maior cidade do país a Sociedade de Cultura Artística, onde funcionava um teatro de 1950 no centro de SP que foi consumido por um incêndio sem causas identificadas em 2008, jamais foi reconstruído por conta de entraves públicos e privados. Já o Museu do Ipiranga, que guarda a memória da Independência do Brasil foi fechado em 2013 por conta de graves problemas estruturais. O Museu de enorme carga simbólica  para os brasileiros possui administração em 3 esferas de poder  que dificulta sua restauração. Com mais de 120 anos de sua inauguração, o Museu  guardião de um precioso acervo, composto de 150 000 peças, uma biblioteca com mais de 100 000 volumes e um centro de documentação com 40 000 papéis e manuscritos, não tem previsão de abertura nem para 2022, ano do bicentenário da Independência.

Enquanto o Louvre-Lens foi construído num terreno de mina abandonada no interior do país e para lá foi transferido parte do acervo monumental de sua sede, aqui escolhemos locações para museus que possam virar cartões postais e nada mais ou negligenciamos o patrimônio histórico e os espaços do fazer artístico.

Quando observamos a Cultura de um outro país que nos oferece tantos referenciais, nesse nível de dimensão, temos obrigação de refletir sobre o que ocorre em nosso entorno. No Brasil, diante da crise moral, política e econômica profunda que nos encontramos mergulhados (a pior recessão desde 1930) precisamos de saídas para colocar em ação um plano mínimo de recuperação, caso contrário, podemos sucumbir porque nem a Cultura simbólica sobreviverá diante de tamanho desastre.

Carecemos de políticas culturais articuladas, claras e objetivas, sem sobretaxas, sem comissões inescrupulosas embutidas, sem conchavos, apadrinhamentos e invencionices caras, precisamos de propostas que articulem com seriedade o desenvolvimento social, porque ainda somos um país profundamente desigual. Neste sentido, é fundamental uma ‘força-tarefa” para estimular e promover a produção e circulação dos bens e produtos culturais juntamente com a educação, seu compartilhamento e  sua democratização. Para isso precisamos de investimentos sólidos, públicos e privados que operem medidas sistêmicas e contínuas capazes de fomentar e fortalecer a cadeia produtiva da cultura gerando renda e movimentando a economia criativa.

Entender a cultura como investimento é o primeiro passo. Nosso país é jovem e possui uma base multicultural bela que precisa ser valorizada e potencializada. O caminho é longo e a recuperação talvez seja lenta mas é primordial que reiniciemos imediatamente porque o mundo não nos aguarda, ele segue adiante mudando, nos oferecendo confrontos, então devemos  quebrar barreiras, superar obstáculos e nos transformar, precisamos ser corajosos, audaciosos, contemporâneos, criativos, dinâmicos, éticos e sobretudo fortes porque cultura é isso, evolução do ser e do estar no mundo, como .nas palavras de  José Ortega y Gasset : “A cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão constitutiva da existência humana, como as mãos são um atributo do homem.”

Rio de Janeiro, XII/2017
Marcia Zoé Ramos
(Produtora Cultural e Gestora de Projetos Socioculturais com formação em Artes Visuais e História)

 

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