As tradicionais fronteiras que existiam em diversas áreas da nossa sociedade parecem, cada vez mais, ter ficado para trás. Na área social não é diferente. Historicamente as fundações (e institutos), apesar de considerável diversidade que guardam entre si, são consideradas como “investidoras sociais” ou, em outras palavras, financiadoras de iniciativas sociais (ONGs, projetos, causas). Em suma, sendo “investidoras sociais privadas”, as fundações dispõem de recursos privados para serem empregados para o bem comum[1].

No Brasil, diferente de EUA e Europa, as fundações assumem clara preferência por executar os próprios projetos ao invés de serem apenas “doadoras” (grantmaking) de recursos a OSCs e a projetos sociais. Os dados mais recentes do último censo Gife[2]revelam que 43% dos investidores sociais privados executam seus próprios projetos, enquanto que outros 41% se consideram como híbridos (executam e doam).

Algumas questões vêm ganhando terreno na atualidade.

Fundações que financiavam OSCs passam também a sentir a necessidade de mobilizar e a captar recursos para ampliar o que já faziam. Ao jogarem esse jogo, surgem algumas dúvidas como:

  • Fundações vão deixar de investir seus próprios recursos ao mobilizarem recursos de outras fontes?
  • Elas vão passar a “disputar” recursos com as OSCs? Isso pode Arnaldo? Isso é justo?

Evidente que estou lançando a reflexão de forma bastante genérica, sem entrar nos diferentes tipos de fundações (familiares, corporativas, independentes), nas diferentes fontes de financiamento destas organizações e nas variadas formas de atuação (executoras, doadoras, híbridas), pois há muitas nuances neste debate.

Importante demarcar que captar é diferente de mobilizar recursos[3]. Vamos construir um raciocínio para tornar a reflexão mais didática. Como uma fundação corporativa eu posso utilizar a rede de colaboradores, fornecedores e clientes para engajá-los na mobilização de recursos para determinadas causas (e OSCs), trazendo dinheiro “novo”para estas iniciativas e com o objetivo de ampliar o que já vinha sendo feito. O foco, portanto, é na ampliação de fontes de recursos (novos bolsos) para aumentar impacto, alcance e escala do que já era feito.

Mas há um risco implícito neste raciocínio, que é o de a própria fundação (em especial, de sua mantenedora) deixar de “colocar a mão no próprio bolso[4]” para passar a utilizar este recurso que foi mobilizado nestas outras fontes.

Uma coisa é uma fundação mobilizar mais recursos (novos) para uma causa e somar ao que ela já tem para ampliar impacto/alcance. Outra coisa é ela substituir a sua própria fonte de recursos e usar esta estratégia de mobilização como estratégia de sustentabilidade própria. Ainda que não haja impedimento legal nisso[5], não me perece muito ético agir desta forma.

Será que nos tempos atuais estas fronteiras e estas “caixinhas” estão se diluindo? Investidores passam a ser captadores de recursos também? E o que vem acontecendo com as organizações (OSCs) que historicamente captam recursos para manter seus projetos?

Vejo que os tempos mudaram e seguem mudando rapidamente. Para as OSCs não é mais sustentável seguir apostando em recursos internacionais e de governo (infelizmente). Elas passam, portanto, a considerar pessoas físicas (indivíduos) e o setor privado (empresas, institutos e fundações) como possíveis financiadores. Ao mesmo tempo elas acompanham com certa preocupação a expansão da agenda dos negócios de impacto, pois tendem a encará-la como uma nova competidora pelas mesmas fontes de recursos disponíveis. Será?

Como lidar com este contexto de mudanças? Como enfrentar a árdua trilha da sustentabilidade financeira?

Só tenho uma conclusão por enquanto. Tendo a concordar com muitos colegas do setor, na crença de que seguir fazendo o que já fazemos não vai nos guiar em direção às mudanças necessárias. Para mudar, é preciso fazer diferente, reinventar-se. A grande questão é: como? Em qual direção?

Mas e as fundações? Como elas vêm se movimentando neste contexto? Como elas vêm se reinventando?

Tenho dialogado com diversos colegas que atuam em institutos e fundações e essa reflexão está muito presente no setor. É preciso reinventar-se! A grande questão é como!

Vejo as fundações muito mais como investidoras sociais e assumindo um papel de articulação, de conexão e de construção de pontes entre os diferentes setores que lidam com as diversas questões sociais/ambientais atuais. Não me agrada muito a ideia de fundações se assumirem como captadoras de recursos (na visão mais tradicional do termo).

Eu tendo a perceber o papel das fundações mais como fomentadoras de causas, OSCs e redes do que como executoras diretas.

Para isso, elas até podem ter que mobilizar mais recursos, mas não para si próprias (ou para seus projetos) e sim para causas com as quais estejam vinculadas e para um conjunto de organizações e de segmentos (governos, empresas, ONG, coletivos, pessoas, etc).

Seguindo este raciocínio, as fundações seriam uma espécie de “enzimas” cuja missão seria promover conexões com vistas à viabilização conjunta de soluções para a enxurrada de problemas sociais/ambientais.

Estariam, as fundações, alinhadas a este cenário? Sinceramente como prática atual no setor não. A esperança é que este tipo de reflexão já vem ganhando terreno entre diversos profissionais do setor. Resta saber se teremos força para impulsionar as mudanças que nossas fundações necessitam na direção do que a sociedade espera delas.

[1] Síntese do conceito de investimento social privado pelo Gife.
[2] https://gife.org.br/censo-2016-keyfacts/
[3] Para alguns, entende-se que: mobilizar recursos dá um sentido mais amplo à atividade, como, por exemplo, a otimização dos recursos existentes, a busca de parcerias complementares ou de fontes de recursos alternativas para realização dos planos. Fonte: http://fundacaotelefonica.org.br/promenino/trabalhoinfantil/noticia/mobilizacao-de-recursos/
[4] Considerando que pouco menos de 1/3 da amostra do censo gife declara ter como origem dos seus recursos um fundo patrimonial (endowment)
[5] Os colegas advogados poderiam dizer que “há controvérsias” no tema.

INSTITUTO SABIN  30/10/2017.

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